quinta-feira, 1 de março de 2007

1984 a 1986

Os últimos anos de glória vocal



De 1984 a 1986, a voz de Sutherland desfruta ainda das últimas reservas do apogeu vocal, ou seja, ainda se encontra uma boa porção de solidez, flexibilidade, bravura e suavidade em seu instrumento vocal. A essa altura, não há mais como negar a decadência vocal, mas é fato que, nos anos 80, o que os críticos mais ressaltavam não era o desgaste e sim a impressionante resistência a essa deterioração vocal causada pelo tempo. Realmente, considerando-se que Sutherland estava à beira dos 60 anos, sua voz ainda era sólida e bela em uma ampla extensão vocal, sua coloratura ainda retinha precisão e grande agilidade e sua técnica ainda tinha domínio sobre a voz, não obstante o envelhecimento audível dela.

Com Sutherland, a impressão é de que a sua técnica nunca se tornou menos segura ou apropriada à medida que os anos passaram. Pelo contrário, foi graças a ela que ela soube disfarçar com algum sucesso os efeitos do desgaste vocal. Enquanto o timbre tornou-se menos suntuoso, homogêneo e maleável, a o legato impecável e os floreios vocais ficaram quase intocados. É claro, entretanto, que os efeitos de uma voz mais frágil e um timbre menos redondo e jovial se refletiram em um canto que não tinha mais aquele senso de completa naturalidade e de capacidade infinita que admirou tanto as platéias nos anos 60 e 70.

Comparada ao início dos anos 80, o registro médio de Sutherland após 1983 é definitivamente mais seco, menos homogêneo e mais ácido, ganhando, em compensação, alguns tons maduros extremamente ricos e envolventes. Os tons escurecidos da voz permaneceram basicamente os mesmos, talvez um pouco mais intensificados, fazendo surgir eventualmente cores pesadas e redondas reminiscentes de uma mezzo (curiosamente, assim como no início dos anos 50!). Agora, no entanto, o timbre menos aveludado e redondo contrasta mais com as notas veladas cada vez mais comuns no seu registro médio.

O tremolo nas notas sustentadas é agora bem mais intenso, não podendo ser negligenciado como podia acontecer no início dos anos 80 dependendo do personagem cantado e da récita. É verdade que, sob o inteligente comando técnico de Joan Sutherland, seu timbre amadurecido e mais trêmulo poderia trazer mais profundidade e urgência dramática ao canto, como é inegável em sua Norma ou em sua Anna Bolena.

Os graves "falados", emitidos com pouca solidez, se tornaram uma constante nesse período. Aparentemente, Sutherland não podia mais emitir graves com a naturalidade no passaggio e a precisão dos anos 70. Além disso, é importante notar que seu hábito de atacar algumas notas do registro médio por baixo, como que num canto parlando, para depois retomar sua voz operística usual se tornou também mais freqüente. Outra mania, esta bem mais bonita, era a de fazer a transição entre uma nota mais grave do registro médio e uma mais aguda com uma espécie de ha, que já havia sido verificada anteriormente, mas só agora se tornava uma característica do canto "sutherlandiano". Mesmo que seja uma limitação técnica ou algo assim, essa mania conferia às vezes, em papéis elegíacos, um verdadeiro significado dramático aos agudos.

Falando em agudos, era aí que residia o maior milagre da longevidade vocal de Sutherland. Embora com menos volume e um pouco menos de flexibilidade, o registro agudo não perdeu nada em qualidade timbrística e facilidade. É claro que a emissão de um Mi5 bemol deve ter ficado mais difícil para Sutherland aos 60 anos, mas o resultado do árduo trabalho dessa cantora permitia que ela sempre os cantasse com praticamente a mesma beleza e precisão da juventude - embora ocasionalmente com um tom um tanto mais metálico ou ácido do que no passado. Notas agudas emitidas isoladamente ficaram intocadas pelo tempo, sendo que só se percebia certo envelhecimento da voz em floreios vocais na região aguda, que não tinham mais uma total flexibilidade, mas mesmo assim eram ainda admiravelmente maleáveis. Nesse período, Sutherland recorria freqüentemente a transposições de tessitura para poder atingir os agudos desejados, o que, antes que reclamem, não é uma exclusividade dela.

Em 1984, Joan Sutherland canta sua primeira Anna Bolena, que ela cantaria ainda dezenas de vezes até o fim da carreira. Sua interpretação é marcante, apesar da idade, especialmente pelo poder de sua voz nos conjuntos e pela agilidade em grande forma. Em 1985, Joan Sutherland canta o último papel de seu longo repertório: Ophélie, de Hamlet, cuja cena da loucura ela já cantava há décadas em recitais com imenso sucesso. Longe de soar como a jovem heroína deveria, Sutherland consegue, não obstante, fazer uma performance tocante e bela, até mesmo tornando a voz mais clara e jovial em boa parte da performance, o que é uma prova de sua habilidade técnica mesmo nessa época. O tremolo da voz, que pode chegar a irritar em notas sustentadas do registro médio, também pode conferir um senso de vulnerabilidade e emoção muito eficiente em outros momentos.

Esse é, basicamente, o padrão das performances de Sutherland em meados dos anos 80: sua presença não significa mais um canto perfeito, como outrora, mas ainda reserva uma técnica, uma musicalidade e, sim, uma beleza vocal admiráveis.

Todas as características vocais citadas até agora (inclusive o timbre envelhecido!) se mostraram particularmente ideais para o papel de Athalia, do oratório homônimo de Händel, que Sutherland cantou apenas em estúdio, mas de um modo definitivo, em sua primeira gravação com instrumentos originais feita em 1985. Sua Athalia é ainda um típico feito de La Stupenda: o timbre é de soprano dramática, a agilidade é de soprano coloratura, o peso e as cores vocais são semelhantes às de uma mezzo.

Em termos de agilidade, como já foi dito, Sutherland reteve algo como 70% de sua habilidade anterior, o que permitia que ela continuasse cantando muitíssimo bem papéis como Lucia di Lammermoor (foto). Os trilos nunca perderam em nada sua qualidade insuperável, sendo sempre emitidos com a mesma facilidade e precisão desde os anos 50 até o extremo final da carreira. O legato continuou exemplar, embora a perda de parte da redondez e homogeneidade do timbre (o que tornava a voz como um todo mais vulnerável às variações mais bruscas ou intrincadas do canto) não permitisse mais aquele canto perfeitamente ligado, linear e aveludado de antes. Sendo assim, em determinadas performances, os tons nasais e velados do canto se tornavam freqüentes, distorcendo um canto que, de outra forma, seria vocalmente irrepreensível. Os staccati de Sutherland mantiveram também a agilidade e precisão, sendo emitidos, no entanto, com maior cuidado e menos volume. Os floreios vocais nem sempre eram feitos com fluidez e beleza totais (especialmente quando adquiriam um tom relativamente nasal ou exigiam decrescendi, cuja piora já comentamos anteriormente), mas, quando ela estava nos seus melhores dias, a performance vocal era ainda inacreditável.

TRECHOS DE ÁUDIO (em ordem): "Softest sounds no more can ease me" (Athalia) - 1985; "Ho perduto il caro sposo" (Rodelinda) - 1985; "Ô mon Fernand" (La Favorita) - 1985; "Il dolce suono" (Lucia di Lammermoor) - 1986; "Deh, non volerli vittime" (Norma) - 1984; "Coppia iniqua" (Anna Bolena) - 1984; "Pâle et blonde" (Hamlet) - 1985; "Sur mes genoux" (L'Africaine) - 1985; "Au bruit de la guerre" (La Fille du Régiment) - 1986; "Alfin son tua" (Lucia di Lammermoor) - 1986; "Vien, diletto" (I Puritani) - 1986; "Ah! segnata è la mia sorte" (Anna Bolena) - 1984; "Les serments ont des ailes" (Hamlet) - 1985; "To darkness eternal" (Athalia) - 1985; "Les oiseaux dans la charmille" (Os Contos de Hoffmann) - 1985; "Or son sola" (Fra Diavolo) - 1985; "Ah bello, a me ritorna" (Norma) - 1984.