segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

1978 a 1983
Mudanças vocais numa lenta e digna decadência



Em 1978, os sinais da decadência começam a ficar audíveis na voz de Joan Sutherland: notas sustendadas no registro médio ganham um tremolo bem mais intenso; o timbre no registro médio soa agora mais escuro e eventualmente mais ácido, embora ainda belo e cheio; o registro grave, apesar do timbre mais pesado e maduro, torna-se menos sólido, com uma recorrência mais freqüente que o aconselhável a graves quase falados.

Não houve, porém, nenhum desgaste rápido e inexorável como ocorreu com Maria Callas ou Elena Souliotis, mas sim uma transição gradual de uma voz em seu apogeu para uma voz deteriorada pelo tempo, transição essa que certamente só terminou por volta de 1988.

Para não ser injusto com essa grande diva, é bom também salientar que, em seus melhores dias, a performance vocal era tão precisa e bela quanto no ápice da carreira, e não são poucos os testemunhos discográficos que provam isso em diversos recitais e apresentações gravadas. Em tessituras agudas, igualmente, não dá mesmo para dizer que houve uma decadência, tanto que, quando cantando árias com tessituras predominantemente agudas, pouca gente poderia perceber que Sutherland não estava mais no auge da voz.

Nesses anos, Sutherland acrescentou ao seu repertório Elettra, de Idomeneo, em 1979; Amalia, de I Masnadieri, em 1982; e Adriana Lecouvreur, em 1983, que se tornaria um dos seus papéis favoritos nos anos 80. Em 1981, ela retomou ainda Desdemona, de Otello, papel que não cantava há mais de 20 anos, mas não voltou a interpretá-lo bastante. Em 1982, voltou ao Metropolitan Opera em grande forma com Lucia di Lammermoor (foto), provando que sua idade relativamente avançada não era páreo para sua infalível segurança técnica.

A voz que se consolida no início dos anos 80, apesar do peso da maturidade e da menor flexibilidade, era ainda ideal para vários papéis do Bel Canto e alguns de outros repertórios, como o Verismo e o Romantismo verdiano. Sendo assim, a não ser que sejamos muito impliquentos, dá para ouvir sua Lucrezia Borgia, sua Norma e sua Suor Angelica sem nada a reclamar, uma vez que, nesses papéis, o tom matrono e mais vibrante da voz não chegavam exatamente a atrapalhar.

O registro médio, por assim dizer, tornou-se tão redondo e maduro que, em certos momentos, soava excessivamente "gutural" para muitas das jovens heroínas que Sutherland costumava cantar. Na região mais grave desse registro, não raro o timbre ganhava um tom "entubado" ou nasal que chegava a distorcer um pouco a beleza e suavidade da linha vocal, mas esse problema só se tornou recorrente após 1980. O tremolo, que foi o defeito mais percebido durante a decadência de Joan Sutherland, só era intenso em notas prolongadas, mas, ao menos para mim, só chegava a atrapalhar o canto em certas ocasiões e, especialmente, em papéis necessariamente joviais.

A voz mais escurecida de Sutherland era mais do que nunca ideal para papéis dramáticos, embora ela não tenha chegado, infelizmente, a expandir seu repertório nesse sentido, como certamente poderia ter feito (papéis como Elisabetta I, de Roberto Devereux, ou Lady Macbeth teriam sido ótimos para sua voz nesse período!). É também inegável que sua voz tornou-se mais expressiva para papéis que não exigissem uma voz delicada e doce.


A carga dramática de seu canto passou a ser mais enfática e direta, de modo que aquela voz pura e suave dava lugar a uma nova voz ainda muito redonda e rica bem como marcada por cores escuras, um vibrato mais lento e nuances dramáticas (mal comparando, pode-se dizer - e muitos dizem - que a Sutherland dos anos 80 se assemelha a um violoncelo, contrastando com o antigo timbre "de violino" que ela possuía). Uma pena que ela não tenha cantado mais heroínas verdianas nessa época, a julgar pela sua Desdemona e Amalia.

Por outro lado, como ainda havia bastante jovialidade e claridade nos agudos, Sutherland pôde continuar a interpretar jovens heroínas belcantistas com suficiente credibilidade vocal. Enquanto o registro médio era afetado por um tremolo, o registro agudo permaneceu potente, sólido, brilhante e jovial, embora um tanto mais ácido nos agudos piani - o que, para mim, às vezes dava um tom extremamente pungente e frágil à personagem, como no final da grande cena de Ophélie - e nem sempre emitido com a mesma flexibilidade e agilidade de antes (o que, se Sutherland não conseguia fazer, é porque é certamente impossível!). O fato é que Sutherland nunca perdeu a beleza e a facilidade dos agudos - alguns supõem que até hoje ela ainda os tem!


Os graves, por alguma razão, perderam muito da solidez e da precisão que haviam conquistado poucos anos antes, o que talvez seja explicado por dificuldades em manter-se nesse registro ou na região mais grave do registro médio, como algumas gravações atestam. Nessas tessituras, o timbre ganhava às vezes um tom ora nasalizado, ora "entubado", o que antes não ocorria. Em algumas performances memoráveis dos fim dos anos 70 e início dos 80, no entanto, onde Sutherland estava em sua melhor forma vocal, os graves se apresentam extremamente firmes e bem emitidos (incluindo até mesmo graves de peito) e a transição entre os registros é bem mais fácil e clara.

Quanto à técnica, é bom logo esclarecer que Sutherland nunca perdeu o controle sobre sua ampla paleta de recursos técnicos. Sua agilidade, obviamente, tornou-se menos impressionante e infalível, e é aí que nós encontramos uma das poucas pioras técnicas: em algumas performances (logo, não todas!), os decrescendi perdiam a antiga precisão - subjetivamente, pode-se dizer que eles não eram mais uma escala de notas decrescendo suavemente, passando a ser agora algo um decrescimento mais brusco e menos apurado, devido ao tom pouco claro e sólido que podia adquirir.

Na maior parte da coloratura que "reside" no registro médio, o canto legato perdeu algo da suntuosidade e redondez das notas que antes, infalivelmente, dava a impressão de uma completa facilidade e perfeita ligação entre as notas. Agora, a transição entre os registros era mais abrupta e o canto, menos flexível e suave, embora ainda absurdamente excitante (nessa época certamente apenas Edita Gruberova se aproximava de Sutherland nesse ponto). Já no fim dos anos 70, em algumas passagens médias, Sutherland passa a cantar certas passagens com um canto quase falado, o que muitas vezes parece ser apenas um portamento dela (ou não).

No geral, os trilos, os agudos, o legato, grande parte da fioritura e o fraseado elegante permaneceram intocados, e elas os manteve com quase perfeição até o fim da carreira, embora recorrendo cada vez mais a transposições para tessituras menos agudas. Sem falar que, obviamente, o conhecimento único de como colorir as linhas vocais do Bel Canto e imprimi-las dramatismo sem recursos histriônicos continuou a ser a orientação máxima do canto de Sutherland.

Outro ponto a favor de Sutherland é que, ao contrário de outras divas, cujo canto soa excessivamente cuidadoso e pouco audaz à medida que envelhecem, o senso de espontaneidade e bravura no canto sutherlandiano permaneceu até pelo menos 1986, o que é um fato admirável. No geral, sua dicção também esteve mais clara e incisiva durante esses anos - embora, devemos admitir, talvez o contato cada vez maior com a sua terra natal tenha tornado seu italiano às vezes um tanto mais "anglicizado".



TRECHOS DE ÁUDIO (em ordem): "O Timour, tu me crois coupable" (Le Roi de Lahore) - 1979; "Sempre libera" (La Traviata) - 1979; "D'Oreste, d'Aiace" (Idomeneo) - 1979; "Lo sguardo avea degli angeli" (I Masnadieri) - 1982; "Io son l'umile ancella" (Adriana Lecouvreur) - 1983; "Ave Maria" (Otello) - 1981; "Ah, non credea mirarti" (La Sonnambula) - 1980; "A vos jeux, mes amis" (Hamlet) - 1983; "Vien, diletto" (I Puritani) - 1983; "Esterrefatta fisso" (Otello) - 1981; "Oh mio cor, schernito sei" (Alcina) - 1983; "Oh mio cor, schernito sei" (Alcina) - 1962; "Spargi d'amaro pianto" (Lucia di Lammermoor) - 1982; "Le voilà! Je crois l'entendre!" (Hamlet) - 1983; "Se inconscia, contro te" (Otello) - 1981; "Spargi d'amaro pianto" (Lucia di Lammermoor) - 1986; "Ah bello, a me ritorna" (Norma) - 1982; "Alfin son tua" (Lucia di Lammermoor) - 1982; "Io non sono più l'Annetta" (Crispino e la Comare) - 1983.