terça-feira, 30 de janeiro de 2007

1971 a 1977

Um frutífero final de apogeu


Entre 1971 e 1977, Joan Sutherland viveu os anos finais de seu apogeu vocal e certamente obteve máximo aproveitamento. Nesse curto período, a australiana teve várias chances de provar que artista completa ela era, o que ela fez e refez várias vezes. A voz, então, começava a adquirir mais peso à medida que a soprano envelhecia, bem como a maturidade artística se revelava cada vez mais surpreendente.

Esses sete anos de carreira foram também extremamente produtivos no que se refere à diversificação do repertório regular de Sutherland, que adicionou novas encarnações célebres à sua trajetória: as quatro heroínas de Os Contos de Hoffmann (1970), Maria Stuarda (1971), Lucrezia Borgia (1972) - foto ao lado -, Rosalinde em Die Fledermaus (1973), Esclarmonde (1974) - ópera redescoberta após décadas por Bonynge e reapresentada especialmente para Sutherland -, Leonora de Il Trovatore (1975), Hanna Glawari de A Viúva Alegre (1976), Suor Angelica (1977) e Sita de Le Roi de Lahore (1977), além de sua legendária interpretação de Turandot, infelizmente feita apenas em estúdio. Os anos finais do auge sutherlandiano foram definitivamente um belo finale para seu glorioso ápice vocal, no qual a voz, a musicista e a intérprete estiveram completamente afinados, não faltando a nenhuma dessas facetas nenhum recurso que a outra poderia oferecer.

Em 1972, Sutherland embarcou em um ambicioso projeto de gravar Turandot, de Puccini. Uma soprano coloratura cantando um dos mais marcantes papéis escritos para soprano dramática? O resultado, como se esperava (ou não), foi espetacular. Adaptando-se por completo ao estilo verista, Sutherland mostrou sua voz portentosa com um timbre dramático, eventualmente um pouco metálico e muitíssimo expressivo, além de uma dicção do italiano novamente claríssima. Joan Sutherland, algum tempo depois, admitiu que gostou tanto da gravação que cogitou interpretar Turandot nos palcos, mas preferiu, depois, deixar para os fãs apenas a melhor impressão dela nesse papel.

O instrumento vocal de Joan Sutherland havia sido sempre bastante volumoso, amplo e rico em harmônicos, características que logo de cara demonstravam que ela não era uma soprano coloratura típica. A partir de 1971, o registro médio - que sempre dera a impressão de ser envolvido por um veludo e uma redondez homogênea quase transcendental - ganhou um tom que marcaria a Sutherland da década de setenta: as linhas vocais nesse registro ganharam mais vibrato, tornaram-se mais penetrantes e, até mesmo, mais ''envolventes'' que antes. Esse registro médio mais dramático possuía uma capacidade expressiva bem mais intensa que o do período anterior, que poderia ser considerado uma enorme coluna vocal bastante envolvente e rica, mas também extremamente homogênea. O timbre se tornava agora mais heterogêneo, com um vibrato que, até 1976, só fez tornar o canto de La Stupenda mais pungente e/ou sedutor.

O tom velado de certas notas médias, que já aparecera no início do auge, foi ficando cada vez mais freqüente nas passagens mais graves do registro médio, mas jamais chegando a atrapalhar e fluência melódica, como aconteceria nos anos 80. Por outro lado, os graves passaram a ser emitidos com maior solidez e naturalidade no passaggio, o que favoreceu suas interpretações de papéis puramente dramáticos, como Lucrezia Borgia, Esclarmonde (foto) e mesmo Norma, que ganhou mais intensidade e ferocidade no canto.



Quanto ao registro agudo, permaneceu brilhante, amplo, absurdamente flexível e firme. Uma comparação com as gravações do início dos anos 60, no entanto, prova que ele já começava a perder parte do estrondoso volume que antes possuía, embora, para falar a verdade, mesmo pessoas que ouviram Sutherland em 1989/1990 comentem que suas notas agudas eram sempre imensas. É possível perceber também que as notas ficaram mais penetrantes (assim como o timbre por completo) e menos redondas, e aquelas famosas notas estratosféricas ganharam um tom mais ''afiado'', linear e, em comparação com as gravações de até o fim dos anos 60, um pouco menos vibrante. Se, nos anos 60, havia uma pequena distinção entre os agudos claros e prateados e o registro médio mais escuro e aveludado, a voz dos anos 70 já possui uma maior igualdade de timbre entre todos os registros.

No fim dos anos 70, apareceria ocasionalmente uma passagem mais brusca para os agudos, que logo começaria a ser (sutilmente) acompanhada de uma espécie de "ha" como intermédio entre uma linha vocal mais grave e a nota desejada (uma das características típicas da Sutherland dos anos 80!).

A partir de 1975, a voz tradicionalmente ''dourada'' e cremosa começaria a ficar um pouco mais "seca" e um tanto mais escura e velada (o que, acreditem, não foi necessariamente uma perda), favorecendo as interpretações de personagens maduras, para as quais sua voz se tornaria ideal. Essa voz mais heterogênea e vibrante certamente contribuiu para que Sutherland começasse a adentrar com sucesso no verismo, cantando com sucesso Turandot em 1972, Ah-Joe (em L'Oracolo, de Franco Leoni) em 1975 - ambas em estúdio - e Suor Angelica em 1977 (uma interpretação emocionante e audaz imortalizada em estúdio em 1978 com Christa Ludwig como a Zia Principessa). A perfeita adequação estilística de Sutherland num repertório completamente distinto do Bel Canto foi uma prova definitiva de sua maestria técnico-interpretativa. Uma pena ela não ter interpretado ou ao menos gravado uma Tosca ou uma Cio-Cio-San nesse período!

Com o novo timbre, sua voz não era mais tão ideal para jovens ingênuas, como Gilda, quanto para heroínas trágicas, como Lucrezia Borgia. Por outro lado, a verdade é que, com a habilidade completa de Sutherland para modelar sua voz de acordo com as necessidades da música, seu timbre podia soar tão homogêneo, lírico e brilhante quanto nos anos 60 (prova disso é sua fantástica Marie, de La Fille du Régiment, que continuou tão graciosa quanto antes) - mas jamais jovialíssimo e claro como nos anos 50 e início dos 60. Além disso, a versatilidade de uma artista como Sutherland supera qualquer limitação ou característica vocal. Um de seus grandes feitos, na década de 70, foi a interpretação das três heroínas de Os Contos de Hoffmann: Olympia, cantada com uma voz agilíssima, leve, jovial e homogêneo (efeito do canto às vezes "mecânico" como o de uma boneca é incrível!); Giulietta, com um timbre apropriadamente mais escuro, rico e envolvente; e Antonia, cantada com uma voz spinto, aveludada, lírica e pungente.

Como atriz, do ponto de vista vocal e cênico, Sutherland não tinha mais a mesma habilidade de retratar personagens joviais e inocentes, mesmo porque não possuía mais o physique du rôle de papéis como Amina e Lucia. Nos anos 50 e 60, ela tinha certamente sido uma das intérpretes ideais daquelas moças sofredoras tão caras ao Bel Canto, pois, embora não fosse (assumidamente) uma atriz nata, havia aprendido a ter uma atuação sempre elegante e sutil. Sua presença de palco sempre foi portentosa, tanto pela sua altura quanto pelo seu carisma dentro e fora do palco.

A atuação de Sutherland, ao menos do ponto de vista vocal, ganhou bastante em intensidade e ênfase nos anos 70, especialmente à medida que ela foi adentrando no repertório de heroínas trágicas do Bel Canto.A prioridade dada à fluência melódica e à expressividade que imbuía naturalmente a música, que norteou as interpretações sutherlandianas nos anos 60, teve que ceder um certo espaço ao uso de recursos dramáticos com a palavra e com a voz (sem jamais distorcer nenhuma linha vocal por mero efeito expressivo, como era de se esperar em Sutherland).

Alguns de seus mais perfeitos exemplos de dramatismo, nesse período, estão na cena da confrontação de Maria Stuarda e Elisabetta I, talvez a mais impactante já gravada (ainda mais se considerarmos que Sutherland blasfema cantando belissimamente!), nas árias de Esclarmonde (um desafio vocal e dramático sem igual na carreira de Sutherland) e na cena da morte de Suor Angelica.


TRECHOS DE ÁUDIO (em ordem): "In questa reggia" (Turandot) - 1972; "Und ob die Wolke" (Der Freischütz) - 1964; "O nube che lieve" (Maria Stuarda) - 1975; "Tranquillo ei posa" (Lucrezia Borgia) - 1977; "Miserere" (Il Trovatore) com Pavarotti - 1976; "Esprits de l'air" (Esclarmonde) - 1975; "Ah, vieni al tempio" (I Puritani) - 1973; "Ah, vieni al tempio" (I Puritani) - 1963; "Era desso il figlio mio" (Lucrezia Borgia) - 1977; "M'odi ah! m'odi" (Lucrezia Borgia) - 1977; "Tutto ho offerto" (Suor Angelica) - 1978; "Par le rang et par l'opulence" (La Fille du Régiment) - 1973; "Les oiseaux dans la charmille" (Os Contos de Hoffmann) - 1972; "Malheureux, tu ne comprends pas" (Os Contos de Hoffmann) - 1972; "Elle a fui, la tourterelle" (Os Contos de Hoffmann) - 1972; "Perfido! Vanne, sì, mi lascia" (Norma) - 1972; "Figlia impura di Bolena" (Maria Stuarda) - 1975; "Regarde-les ces yeux" (Esclarmonde) - 1975; "Ah! son dannata!" (Suor Angelica) - 1978.

2 comentários:

Anônimo disse...

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